terça-feira, março 02, 2010

Monólogo de uma Vida pouco Adormecida I


Meia noite e não dormi.

Fiquei tonto.
Quase morto.
A pedir ao deus do sonho metade do sono do céu.
Fiquei cansado da viagem ao castelo do rei preguiçoso.
Já nem fazia aquelas frases secas dos dias em que não via nada, não sentia nada, não sabia de nada.
E as cartas que escrevia eram para mim, para as ler ao deitar-me e ao acordar, sempre que me esquecesse que ler livros é eternamente aborrecido.
Eu ligava o rádio e esse era o meu vicio feito arte até eu hibernar, arte de ouvir, de observar dentro da alma a junção do sonho e do peito.
Desorganizado nas memórias é como me sinto.
Perdido nos sonhos e enjoado do cheiro que a distância dos afectos me traz.
Por isso eu fico.
E sinto-me "morto" ou finjo que o estou enquanto o tempo se despe de pressa e se veste de sono. Veste-se e fica ali num burburinho maçador a lembrar-me de que, se não tenho sono, é porque nada fiz de produtivo em toda uma vida de jogos e casinhas, de carros misturados uns por cima de outros, comigo a arrastá-los de bicicleta, ansioso por chegar de pança cheia de lixo que é uma fortuna, ou se sente que é.
Mas não durmo.
Custa-me.
Agito-me muito.
Penso em forma de gritos.
Por isso não durmo, fico.
Cubro o corpo em gestos descoordenados que são quase uma doença e o pouco que me levanto não é ridículo mas sugere uma triste comédia, um riso de situação com palavras cínicas escritas de rascunho no canto direito da mão, uma mão qualquer.
E nesse estado absorto espero que alguém apague a luz do cimo dos meus cabelos escorregadios, molhados, desalinhados.
Espero por alguém que se dê ao trabalho de entrar repentinamente porta a dentro, sem obrigação incutida, ou então um semi-deus vindo de uma tela abstracta.
E fico, por ficar!
E não durmo, não por não querer.
No "antes" havia por cá três ou quatro miúdos
Também, não adormeciam.
Os miúdos já não moram cá.
E porque não adormeciam, não por não quererem, ficavam por ficar.
Falo com eles muitas vezes.
Sei que não respondem. Eu falo, eles ouvem.
Tento não fazer perguntas a que possam responder.
Só falo.
No "depois" gritava-lhes.
Eles, os miúdo, molhavam-me a cara.
Batiam-me, às vezes. Eu não chorava e na vergonha do gesto de chorar, nesse som imperceptível, eu ficava e a noite passava e eu não dormia, como desejava.
A casa, a minha casa. Era feia.
Por isso os miúdos, os poucos que restaram, nunca cá voltaram, mesmo depois de partirem num "até amanhã", num "durma bem".
Talvez a culpa de tudo o que acontece ainda hoje seja da casa.
Culpa de ser sempre a mesma casa, o mesmo quarto, na mesma sala, do mesmo corredor abrupto.
Gosto de estar nela, na casa.
E tenho pena de não dormir, de ficar.
Havia moscas simpáticas nas pontas dos meus dedos dos pés, antes de me tapar. Eu gostava de as ver e por isso nunca me tapava dos joelhos para baixo.
Depois tinha frio.
As moscas no "agora" também se foram embora, mas continuo com o mesmo frio.
Estranho, é.