O Filme da Tua Vida
Teatro que cruza o género cómico e dramático, através de elementos sérios e comoventes assim como elementos hilariantes e patéticos.

Personagens: Jim e James
Espaço da acção: Águas furtadas e exterior abstracto.
Acto I
Águas furtadas. Inicio da manhã. Vários caixotes de madeira a servirem de mobília, uma moldura com um retrato num dos caixotes, um vestido num cabide de chão, vários livros espelhados pelo chão.
Cena 1
Jim está no palco com a uma guitarra e começa a interpretar versos da música que está a compor.
Comprei uma noite para amar
Senti as palavras a fugir
Não há ninguém que queira dar
Asas e vento para subir
Vendo pedras mal pintadas
Roubo sonhos para acordar
Mato o pó que me sufoca
Já não sei chorar.
Passei noites a romper pensamentos
E nessas noites tive mais que uma flor
Toquei os olhos de mulheres mal vestidas
Tive beijos sem sabor
As noites são diferentes
O amor só tem imagens
De saliva que é mal gasta
À procura de viagens
Vejo olhos enfeitados de ternura
No escuro a noite é pura.
Pára de tocar. Coloca a guitarra no chão. Tira um cigarro do bolso e leva-o aos lábios mas não o acede. Senta-se no cadeirão.
Jim – No escuro a noite é pura! Algum daqueles gajos sabe o que é que isso significa? Anda um gajo aqui a humilhar-se, a negociar a arte por tostões. Fascistas de merda.
Acende finalmente o cigarro.
Quero lá saber! Nem sequer sou anti-fascista ou anti-capitalista ou anti porra nenhuma. (Fixa a fotografia que está na moldura em cima de uma mesa) O que as pessoas querem é “coisas novas”, novinhas em folha. Quem não as tiver está bem fodido. (Pega na moldura) Não é Sara? Não é isso que nos ensinam e que tu bem aprendeste quando te aproximavas dos carros e dizias, “faço tudo!” (Volta a colocar a moldura no seu lugar)
Quinze anos, uma boa mini-saia e um perfume de nome “bon chance” fazem toda a diferença. E nem é preciso sorrir. Sorrir para quê?
Som de carros a circular. Jim olha para cima e fecha os olhos
“Hei! Você aí. É prostituta como as outras, não é? Então combina-se já aqui o que é que se faz. Dou-lhe um conto. Uma nota de conto e serve-se também um amigo meu que está cá só de passagem. E se não fizer perguntas somos capazes de lhe dar um pouco mais.”
Dirige-se para o vestido que está pendurado no cabide e simula uma conversa a dois.
Era assim que eles falavam contigo.
E tu gostavas. E como gostavas. Havia sempre dinheiro para café e cigarros. Cigarros que eram um banquete, uma refeição, uma razão para acordar…
“Hei! Você aí. É prostituta como as outras, não é?”
Eras linda e gasta!
E durante muito tempo levaste uma vida de merda, uma vida às cegas, de dívidas e violência e mais não sei o quê. E eu nunca fora tão feliz e infeliz como no dia em que tu me morreste.