domingo, setembro 17, 2006

O que muda é o sorriso, não a intenção


Willie

Sim, sou eu! O Willie! A fazer exactamente a mesma coisa... que fiz ontem de manhã! E antes de ontem de manhã! E antes de antes de ontem e antes de.. Engraçado! Ía jurar que se hoje não estivesse a fazer isto, já saberia como é não fazer isto. E não mudaria nada! Absolutamente nada. Ou mesmo se o meu nome não fosse Willie eu continuaria a fazer algo como tomar duche, lavar os dentes, pentear-me... desfazer a barba! Vestir-me, despir-me, vestir-me, despir-me... de manhã, todas as manhãs! Poderia tomar o pequeno almoço a meio da tarde ou insistir que o que como é um jantar matinal, mas todas as manhãs, ao olhar-me neste espelho fosse para o que fosse, não deixaria de ver a mesma cara! A cara do Willie! Curioso. Todas as pessoas devem pensar nisto de vez em quando! Ou talvez não! Talvez isto, para mim, já se tenha tornado demasiado maquinal e enfadonho!

Que estupidez! Nem sei porque estou a pensar nisto agora!
Acho-me feio! Não sei! Acho! É claro que às vezes também me acho bonito, porque tudo depende da minha boa disposição e porque é mesmo assim que tudo funciona! Se estamos bem somos inteligentes, compreensivos e até bonitos! Se não... paciência e não há ninguém quem nos ature!

E ela? Ela ! Estou farto de ser o senhor anónimo que envia cartas sem se importar que não tenham resposta.


Ana Lee

Tive um sonho horrível! Que coisa! Prefiro nem me lembrar! E estas olheiras!? Meu Deus!

Uma pessoa deveria poder escolher a cor dos olhos, a cor do cabelo! Deveria poder escolher ser mais ou menos bonita, consoante aquilo que lhe agrada! Aquela história de sermos todos bonitos nem que seja interiormente, é só para nos consolar e para aceitarmos de uma maneira suave todos os defeitos que temos!
Imagino-me com um batom caríssimo, de olhos pintados e com montes de porcarias no rosto. Seria mais bonita? Não sei! Provavelmente ficariam a reparar se seria Chanel ou Cristian Dior em vez de repararem em mim. Afinal de contas é isso o mais importante! Somos o que vestimos, o que usamos, o que possuímos! Essa é sem duvida a nossa beleza! E talvez por isso ele nunca venha a olhar para mim!
Durante este tempo todo não houve um só momento em que não pensasse nele. Não me sai da cabeça! Se ao menos eu fosse um pouco menos insegura, menos... ( olhando-se fixamente e tocando no rosto ) Poderia dizer-lhe alguma coisa hoje se o voltasse a encontrar. “Olá! Eu sou a Ana! Ana Lee! Lee com dois E’s no fim. Que ridículo! Provavelmente ele diria: «Eu sou o Willie”, eu dizia que já sabia, ele perguntava como é que eu sabia e eu estragava logo tudo! ( levanta-se, calça uns chinelos, põe um elástico no cabelo, e sai a correr )


Sofia

Gosto de me ver a chorar! Não digo chorar como as crianças mas assim como estou agora! Só com a cara molhada! Gosto da minha imagem assim, triste! É isto que eu sou e não a Sofia Lee de 23 anos. A que mora no terceiro andar da rua Alta. Parece que as pessoas aqui descobrem mais rapidamente que sou uma pessoa triste, e provavelmente sozinha, do que descobrem que moro na mesma rua que elas e que me chamo Sofia e que tenho 23 anos. É ridículo e algo automasoquista mas não deixa de ser verdade. Sinto-me igual a ontem. Sinto-me sem evolução, sem alteração de estado de espirito! Chego a ter vergonha de mim. Estou farta de fingir que ainda acredito na busca da tal felicidade que dizem chegar para todos! Estou farta! Os outros se quiserem que continuem a fingir. Eles que procurem essa felicidade, e que continuem a desprezar-me por muito tempo. Eu vou continuar a odiá-los ainda mais porque já antes os odiava. (Colocando as mãos na cabeça e olhando-se fixamente no espelho. Pega em algumas cartas ) Se um dia descobrir quem tu és, tu que te esconde por detrás deste “anónimo” para poderes troçar de mim... Sou uma porcaria! Não sirvo para nada! Sou horrível, horrível, horrível!
Tenho de acabar com isto! Tenho de sair desta casa e fazer alguma coisa lá fora!