Estende o vestido no chão e observa-o.
Tinhas vinte anos, eu sete. Acabavas de vender todos os teus discos em vinil que valiam uma fortuna. Tomei banho nessa noite. Vesti a minha melhor camisa e as únicas calças que tinha. Eram onze e meia da noite e tu levaste-me ao Greencherry, um dos sítios mais frequentados de Port Laos. Seis quilómetros a pé. Foi uma sorte termos chegado antes de fechar. Estava praticamente vazio. Sentei-me de frente para a janela. Tu ao balcão pediste para mim, um gelado. Até aos meus sete anos não havia comido um gelado que fosse. Era coisa para gente de boa carteira. Nem sabia por onde começar. “Olha que isso derrete!”, disseste-me enquanto levavas um cigarro aos lábios. Cada colher que eu levava à boca era mais saborosa que a anterior. Havia uma pressa incontornável de provar todas as cores, perceber qual o sabor de cada cor. Uma felicidade enorme. Tu olhavas-me como se eu tivesse acabado de nascer, como se estivesses a pegar-me ao colo. E esqueci-me por momentos de todas as sovas que me deste. Os olhos brilhavam-te. Muitíssimo! Olhaste-me mais uma vez e sorriste-me. Nessa noite fui para casa depois da uma da manhã. Um verdadeiro recorde na altura. Deixaste-me dormir na tua cama, com cobertores e tudo. Disseste-me, - “Cuida bem de ti Jim” e deitaste-te no corredor ao fundo da sala com mais um dos teus clientes habituais. Talvez para pagar o gelado que comi.
Pouco me importa a vida que levavas. Uma mãe é uma mãe. E morreste-me nessa noite ou simplesmente não quiseste acordar… no dia em que eu, pela primeira vez comi um gelado. Foi fácil chamar um médico. O mais difícil foi dizer, -“Sou filho dela, e não tenho mais ninguém.
Silêncio. Pega novamente na guitarra.