Nesse momento o Corpo IV apressa-se a oferecer-lhe o seu joelho como se fosse uma cadeira.
A Rapariga I descai o corpo para trás e o Corpo II apressa-se a suporta-la, como se fosse ele próprio as costas de uma cadeira.
Ela fica como que num divã, a bafar o cigarro, em pose elegantíssima.
Rapariga I – Segurai-me com firmeza cavalheiros, pois que sou gentil donzela e rara preciosidade.
Corpo IV – (impressionado) Não duvido, bela senhora. Bem vejo quão grande é a beleza que vossa feição suporta. E por quem sois, ou por quem é vosso coração?
Rapariga I – Ousais demandar sobre um coração que desconheceis. Sois destemido. E cuidais que vos hei-de responder?
Corpo II – Destemido aqui me tendes donzela e senhora. Nada receeis pois que me encontro a vosso lado e a vossos pés. Ser-vos-ei nobre no quanto desejardes, justo e disponível. É por mim vosso coração, acredito.
Corpo IV – Que absurdo meu pobre sonhador! A mim se destina a contemplação de tão bela graciosidade. Que não vos iluda vossa inutilidade. Sois banal, de rejeição.
Corpo II – Que me dizes? Tende cuidado. Medi bem as palavras que me atiras. Com um só gesto sou capaz de vos eliminar.
Corpo IV - Vós e um exercito suponho. Ou melhor! Nem mesmo um exercito e quanto a vós... Vá desamparai-me o espaço de conquista. Não vedes que me importunas?
Corpo II – Ai de mim que me atiro sobre vós. Usais de tão seguras palavras e não cuidais do perigo que vos espera.
Corpo IV – Nobre donzela e senhora. Se me permitis acabarei já de seguida com este estafermo que me molesta.
Corpo II – Atrevei-vos se a coragem não vos falta. Mas advirto-vos que deste corpo não levareis se não pancada. Atrevei-vos então.
Rapariga I – Calai-vos por favor. É por mim que lutais? De onde vos virá aos dois tal ilusão? Não vedes o quanto vos desprezo?
Corpo II – Todavia nada entendo de desprezo. Meu coração é uma rosa para vós.
Corpo IV – E Meu coração um jardim!
Rapariga I - Pois se é vosso coração um jardim colhei-me lírios, cravos e açucenas.
Corpo IV - Lírios, cravos e açucenas?
Corpo II - (rindo) Agora mesmo vos dareis conta do embusteiro que aqui tendes.
Rapariga I – Pois sim darei. E vós que tendes um coração em forma de rosa, podeis ao menos oferecer-me pétalas, e que não estejam murchas, peço-vos. (rindo)
Corpo II - Zombais de mim por instantes?
Rapariga I - Ao menos sempre me divertis nesta pasmaceira.
Corpo IV – E isso quereis? Pois se divertimento quereis aqui me tendes. Mandai-me contar um chiste ou uma graça sobre este burlão. Hei-de fazer-vos rir que nem um bobo.
Corpo II - Pobre ignorante. Bem vi que nada possuis de romântico. Para bobo tereis feição, não duvido. Vá. Diverti-me também a mim que me aborreço.
Corpo IV - (furioso) Eu seja cão! Estais a pedi-las!
Rapariga I - Ah! Já começo a cansar-me de tão pouco juízo de tendes vós os dois. Quero ir-me.
Corpo IV – Não antes sem um beijo, peço-vos!
Corpo II – Um beijo me bastaria para…