terça-feira, setembro 26, 2006
Transporta
Rapaz III vai buscar uma cadeira e arrasta-a até ao meio do palco. Senta-se nela.
Rapaz III - Sou uma pessoa agitada. Exalto-me com facilidade.
Tenho de conter-me na maneira como aceito o que as outras pessoas me dizem.
Tenho sempre presente a sensação de que todos me querem mal. Há sempre alguém escondido à espera de uma oportunidade!... Para me seguir até casa, levar-me para um lugar escuro e inacessível onde ninguém me possa encontrar, e aí fazer-me as piores coisas do mundo, coisas horríveis, coisas que só eu possa imaginar.
As paredes têm olhos. Acreditem que têm olhos. Tento ficar sempre alerta não vá uma dessas paredes descobrir tudo sobre mim. As minhas frustrações, a importância que ninguém me dá. Sinto que as paredes me fotografam, que me copiam os mecanismos mentais, as atitudes. (pausa)
(sussurrando) Há dias tentei suicidar-me! Duas vezes em menos de duas horas. Por causa das paredes. Por causa das pessoas. Por causa das minhas frustrações. (pausa)
Hoje mesmo, quando já estava tudo preparado, quando eu tinha a certeza absoluta que ia ser hoje, o meu pai telefonou, extremamente agitado. Tive de atender o telefone pois podia ser a última vez que falávamos. (fingindo falar ao telefone) “Estou sim!?” A princípio fiquei sem perceber o conteúdo do seu discurso. Estava bastante agitado e não parava de me dizer que eu tinha de ser forte, que os próximos momentos seriam de dor, que por isso tínhamos de nos unir, de nos apoiar, que iria precisar de mim mais do que nunca, e eu dele. Disse-me para ter calma embora soubesse que no momento seria difícil aceitar a verdade dos acontecimentos. (pausa)
Congelei. Fiquei sem palavras. Não era possível que ele soubesse da minha intenção. Foi fácil ficar nervoso o que é normal em mim, e em poucas palavras disse-lhe que não estava a perceber nada do que ele tinha dito. Mas não excluí a hipótese de ele saber do que eu tencionava fazer.
Ele repetiu todas aquelas coisas novamente dizendo ainda que a vida é feita de sofrimento, que as pessoas não duram para sempre e que é nesses momentos que temos de ser fortes. Depois ficámos uns minutos sem dizer mais nada. E seguidamente, mesmo que tivesse algo para dizer tive vergonha de mim, e com toda a razão para tê-la
Transpirava exageradamente. A minha respiração acelerada não me permitia dizer absolutamente nada para continuar a conversa. Consegui por instantes ver o meu movimento cardíaco no vulto da camisola. As lágrimas começaram a misturar-se com a transpiração. E tive medo. (acelerando o relato)
Que ignorância a minha. Que falta de coragem. Uma quantidade infindável de coisas para descobrir e eu cansado não sei de quê ou de quem. Só porque é fácil desistir, só porque me é tremendamente difícil dar sem pensar que a cada dia estou a receber.
Depois daquele grande silêncio decidi desculpar-me por todas aquelas atitudes neuróticas, psicóticas e inconscientes. Talvez falando abertamente da minha intenção, inconsciente que fosse, talvez me sentisse com vontade para ver o mundo de outra maneira.
E foi então que percebi que a intenção do telefonema nada tinha que ver comigo, nada tinha de meu, pois mal eu abrira a boca para dar tudo de mim, ele, esse a quem sempre chamei de pai, disse muito calmamente, soluçando, choroso e desgostoso.
“Estou na casa da tua avó (pausa). Já liguei para o hospital... e... Eu... acabei de encontrar a tua mãe no chão da sala. Envenenou-se. Ainda chegou a dizer-me que... Não desligues por favor.” (Respirando compulsivamente à medida que o seu rosto vai ficando encharcado de um enlagrimado cansaço)
Tudo isso se passou há menos de trinta minutos.
Estou mais nervoso do que o habitual.
Encontro-me num impasse.
1 - Levanta-se da cadeira e vai até ao centro do palco.
2 - Faixa 12 de Vim Martens.