De Santiago de Árvore até Fragata

A mãe fazia sopa na cozinha húmida e fria enquanto os gatos se roçavam pelas suas pernas e os dois cães apanhavam uma sova pela terceira vez, esta tarde. - Coitados! - dizia Sara a minha irmã mais nova. Os cães estavam ali presos naquele pequeno cubículo sem telhado e nunca ninguém havia pensado que sofriam. A princípio aquele lugar era para ser uma cozinha mas nunca mais se colocou o tecto de telhas largas e cinzentas. Então acabaram por lhe dar outro fim. Agora era o sítio dos cães, tapado na entrada com uma porta que havia sido tirada do quarto da avó e que agora era dos pais, pois a avó morrera já há algum tempo. De vez em vez atirávamos comida lá para dentro pela parte de cima, a que não tinha tecto. Era sempre pouca comida. Às vezes os cães fugiam e iam para debaixo da nossa cama. Minha e dos meus irmãos porque era só uma. Quando tentávamos tirar os cães debaixo da cama com uma vassoura, ganiam tanto que pareciam estar a morrer. A minha irmã mais nova, Sara, chorava. Tinha pena deles porque se lembrava de quando estes eram pequenos e de como adorava tê-los no seu colo. Nessa altura fazia-lhes muitas festas. Sempre tivemos cães. Quando uns morriam, nós arranjávamos outros. Lembro-me constantemente, de todos os momentos daquela época. Lembro-me da cozinha nos dias de chuva, da mãe a correr da porta do quintal para a cozinha e lembro-me do som da chuva a bater nas telhas improvisadas de metal. Chovia dentro de casa quando a chuva se alongava, ou melhor, chovia na minha cama.

Neste momento, estamos no ano de todas as coisas possíveis serem realizadas, o que a princípio me incomoda. É o ano de 1983, o ano que abarca os panfletos de reconstituição política, as oficinas de reparação de automóveis, os estaleiros de barcos de um lugar chamado Caldeira onde se faziam corridas com capotes de carros. É também o ano da descoberta das ruas flutuantes que eu ainda desconheço, o ano do roubo de refrigerantes, pelos putos, às camionetas de sumos estacionadas em qualquer sombra de verão à hora do almoço, é o ano do roubo de frutas nas pequenas quintas de Santiago de Árvore. Por fim, é o ano de ser possível ficar até às dez da noite nos batelões, como chamávamos aos barcos gigantes de metal, a apanhar caranguejos e peixes preciosos no rio Navalha, é o ano de brincar a coisas que sugiram beijos nos lábios com as línguas, ou até mesmo o estímulo ao sexo apenas pela fricção dos corpos. Tudo se transforma como coisa real. Na minha rua as pessoas falam do que querem e como querem. Até ai tudo bem não fosse o facto de já não haver conversa provável entre mim e pessoas que se dizem autênticos conversadores de café. Portanto não é difícil imaginar que todas falam para si mesmas. Pouco me importa tudo isso. Há um sol enorme e as ruas vão sempre dar a sítios que nos apoquentam menos. Esta rua, por exemplo, por ser uma rua flutuante, ou seja, está assente sobre o Rio Navalha, é pouco movimentada pois há o perigo de uma das madeiras que a sustém rebentar, deixando alguém num verdadeiro martírio. Para mim é natural. É o caminho que faço obrigatoriamente todos os dias, com a excepção dos sábados e domingos de verão, que é quando venho a nado desde a margem de Santiago de Árvore até Fragata. Hoje estou de regresso a casa mais cedo que o habitual. Foi um dia seriamente aborrecido e penso não repeti-lo. As casas foram as casas, o céu foi o mesmo durante largas horas e até mesmo o género de pessoas ordinárias, mas interessantes, que por aqui circula diariamente, não deixou de ser isso mesmo, tornando o dia péssimo e desagradável ao meu cérebro. A minha casa é a DJ9, descrição essa que persiste desde há muito. É que mesmo antes de eu cá morar já havia sido designada como tal. Moro no DJ9 deste pequeno espaço de nome Fragata e que se situa no Rio Navalha. Antes morava cá um tal de Dom Maldade. Ainda hoje vem cá pessoas, das mais estranhas que já vi, a perguntar por ele. Umas até da pior espécie, não pelo ar que trazem mas sim por correrem rumores de que esse tal Dom Maldade seria um cobrador de dividas difíceis. Quando me aparecem por aqui tento ser o mais breve possível. - Dom quê, desculpe? – pergunto eu franzindo a testa. - Dom Maldade. – repetem. - Ah, esse! Já não mora cá. – digo eu a tentar fechar a conversa. Mas quando já estou de costas tentam saber mais um pouco. - Mas conhece-lo? – perguntam levando as mãos aos bolsos do casaco e olhando em redor. - Não, não quero mais nada, obrigado. – digo um pouco atrapalhado, já sem qualquer interesse no que me possam dizer e tentando finalizar o diálogo. Nisto fecho a porta sem fechadura, empurrando-a. O maçudo é ter de ficar encostado a ela, fazendo pressão sobre o lado de dentro. Há sempre a hipótese de alguém, mesmo sem maldade aparente, espreitar e depois querer entrar à força. Chega a ser ridículo este tipo de pensamento. É que a porta é decorada por fendas. Não me preocupa se é de boa educação, mas espreito sempre por uma dessas fendas para ter a certeza que esses sujeitos se vão embora e que não voltarei a ser incomodado. Por vezes eles persistem em obter respostas e continuam a bater na porta. E eu fico ali agachado até se fartarem, o que me vale sempre uma bela dor de costas. Por vezes imagino que alguém poderia vir cá para me roubar. E roubar-me-iam o quê? A cama? Pois sim, a cama. De resto não tenho mais nada que considere importante. Mas deixemos esses pensamentos. Gostava de poder dormir hoje mais descansado. O problema é que, tal como nos últimos dez anos, o remexer do pensamento não me deixa dormir já, e já é neste momento. É tempo de vestir o pijama. Mas, se o pensamento não me deixa dormir já, não se justifica que eu faça tanto sacrifício para repousar a horas certas. Já nem considero uma tortura ficar acordado até amanhecer. O hábito já mo sustenta. Depois é só deixar que as pestanas comecem a pesar, se pesarem e começo a divagar. Precisava de um chá que me transformasse num comício, para que o tempo passasse rapidamente. Os olhos ficariam contentes com tantas conversas na cabeça. Mas voltaria impetuosamente ao mesmo. Mais vale deixar-me estar acordado pois aproveito melhor o tempo. É que às vezes sonhar muito suja a alma. E vemos o que não queremos ver, não ouvindo nada nem prestando atenção a nada. Tenho sempre muito cuidado à hora de dormir, não vá a palma da minha imaginação entornar todo o brio que, embora feio e bruto, sempre me ajuda a queimar rascunhos de cascalho que trago dos dias enfadonhos. O meu corpo por vezes anda molhado por saber que um dia o meu coração se desgraçou. Ainda que toda a culpa seja do tão maldito e engenhoso pensamento, é sempre nos olhos que tudo se manifesta. É o que eu digo. O dia de hoje por instantes, reparo agora. Antes as coisas eram mais simpáticas. Dava para começar a dormir com um, “ era uma vez “! Mas aos vinte e oito anos soa melhor um, “ boa noite meu amor”, vindo de um corpo feminino que nos aperta contra o seu peito. No entanto, desde que cheguei, desde este pequeno ápice em que vesti o pijama, neste preciso instante, e parece até que tinha de ser hoje, remexo no pensamento e nem disso me lembro. Tudo porque a insónia me traz a ruína todas as noites na mesma hora. E nunca falha, nunca se atrasa, quer eu tenha já pijama ou vá simplesmente a caminho de casa. - Lá vem a insónia. – digo eu às vezes, sabendo o que me espera – Lá vem ela, sempre no momento certo para marcar encontro ou casamento. Parece que é uma festa. É assim que eu adormeço nesta casa perfilada no rio Navalha. Adormeço ou penso que o faço. É mesmo verdade. Será assim tão difícil dormir quando se quer? Não consigo fechar os olhos. Nada de sono (...Continua...)
Sandro Pires