sexta-feira, outubro 14, 2005

Madrugar para pensar.



Ter cinquenta anos.

Não pensar no porquê das coisas.
E o medo que entre alguém no nosso quarto,
Exactamente no momento em que estávamos
A olhar para a porta.
Ter pânico que esse alguém tenha nome, que
Esse alguém diga qualquer coisa, ou que
Simplesmente apareça e se vá embora sem dizer
Nada.
Passar os dedos da mão pela cabeça farta de
Cabelo.
E as coisas são mesmo assim.
Mas podiam ser de outra maneira.
Ocupar a concentração pintando paredes,
Colando desenhos e trocando as madeiras do
Quarto.
É mesmo necessário mudar as mobílias de vez
Em vez.
E rir.
Ou então concentrar a ocupação do tempo
A guardar recordações de há tão pouca idade.
É melhor assim.
E lastimar-se.
Ter raiva dos miúdos vaidosos, enfeitados de
Penteados e roupas demasiado ridículas.
Meninos que para além de decorarem a data do
Cinco de Outubro, por ser o dia da implantação da
Repúblicas, não sabem que Portugal não é tão bom
Como se diz.
Querer beijar todas as senhoras bonitas entre os
Dezoito e quarenta anos que passem por mim nas
Estradas, nas passadeiras, apressadas porque o
Sinal que era verde ficou agora de outra cor.
Queria mandar-lhes cartas de amor pelos olhos,
Flores, recados de mendigo.
Querer desistir da vida tão simplesmente como
Oscilar a cabeça, só porque deixou de existir chá.
Andar às voltas sem sair do mesmo lugar.
Sair de casa em direcção à lojinha de pijamas
Perfil sabendo que está tudo igual, e que o mais
Provável evento é o descontentamento de voltar
Para trás.
E ir.
Contrariado, mesmo andando sozinho e por
Vontade própria.
Voltar para casa aborrecido porque está seriamente
Tudo igual, e dizer:
- “ Eu já sabia. “
Pintar paredes.
Colar desenhos nas paredes.
Trocar as madeiras do quarto.
Guardar memórias de há tão pouco tempo.
Depois de toda a raiva que se tem, irrompe o
Desejo de ter, de possuir as senhoras bonitas.
Mas só com beijos, só com puxões de lábios,
Só com lábios.
E por fim, não ter chá para comemorar o ter
Cinquenta anos.