Viajando fora e dentro da cabeça

Passaram já dez anos. Na manhã de ontem recebi uma carta de Ana de Chá. Senti-me inerte e incomodado ao lê-la, por ser uma carta curta e por ser uma mensagem infalível. Dizia simplesmente – “ Vem ter comigo. Não me perguntes onde estou. Procura-me.” Junto enviava uma foto supostamente recente e incrivelmente bela do seu rosto. Talvez o dia de hoje tenha sido impertinente pelo sentimento de indecisão que perdura desde ontem no meu estado de alma, talvez por ter tomado hoje a decisão antecipada de partir amanhã não sei bem para onde. Talvez por ter decidido que encontraria alguém parecido com a senhora princesa. Mesmo que o seu nome não seja Ana de Chá ficarei à espreita de poder torná-la numa aspirante ao meu coração. Partirei amanhã por volta da meia-noite que é quando ninguém faz noitada. À meia-noite e no meio de um sonho estarei já quase de partida. Não levo milhões de pedras para o sítio onde vou mas é como se as levasse. Vesti propositadamente o meu casaco de noivado. Sinto-me pesado mesmo sem a bagagem. Ah! Deve ser a cabeça. Provavelmente chove lá dentro. Provavelmente há lá uma grande inundação. Provavelmente estarei azul amanhã por ser a consequência dos dias de tempestade. Atraso-me sempre. É-me difícil não o fazer. Mas hoje, excepcionalmente, estou já quase na estação de comboios. Talvez o desmedido comboio, o das vinte carruagens, me aguarde e me guarde lá um lugar ao lado da locomotiva. - Afinal sempre veio. – dizem alguns transeuntes apressados – Está lá ao fundo parado, não se vê logo? Avisto-o ao longe, daqui da rua flutuante, e sou só um passageiro que não quer perder a jornada, tal como a humanidade toda, e a gente toda, e a pressa toda. E apesar do peso da cabeça ou do medo do arrependimento, viajo. Chego a tempo, à pequena estação de comboios de Santiago de Árvore. Compro bilhete para Santiago de Medo. Corro em marcha apressada ao ritmo de uma conhecida campainha, som, ruído de “ pouca terra, muita terra “. Chego e piso o primeiro degrau, calcando-o com firmeza, colando os cinco dedos da mão apurada num trinco regulado. - O comboio para Santiago de Medo é o da linha dois - dizem-me. Depois lá me explicam que está atrasado. Uma hora de atraso é um contentamento de excepção. - Falta-lhe o vapor – apregoa-se no intuito de acalmar a gentalha. Já que assim é, para nada me serve este comboio para onde entrei apressado e erradamente. Inclino a cabeça e vejo o comboio da linha dois através da janela deste outro comboio. Falta-lhe o vapor, sem dúvida. Recuo conforme o meu corpo me permite. Há pessoas sentadas à espera do seu destino, observo. Olham-se por dentro, comem jornais e revistas sensacionalistas, e gostam ao que percebo pelas suas caretas. Eu vou à Praça Canalha porque fica perto. É lá que tenho agora descanso. Digo que já volto, como que se a importância que dou a isso fosse a da perda de uma viagem. Talvez pense nisso mais tarde. Agora só me resta distorcer o que digo, não dando, nem querendo perceber que tudo o que faço e digo gira em redor da mulher princesa que quero encontrar. Disse mulher princesa por achar que Ana de Chá é pessoa que se procure mas não pessoa que se ache por ai. Espero vivamente que ela seja alguém que resistindo e não me resistindo, não me deixe agora, logo de início, como um passageiro pesado, passado e obrigado a viajar na casualidade. - Boa viagem Tommyhann – penso em estado de mudez para mim. Houve dias em que tu, Ana de Chá, também estavas de viagem e eu, imaginando-me como simpático revisor de comboios de viagens pesadas e passadas, não te cobrei bilhete. Apagar-te? Não te levar na bagagem? Não! Tenho-te já cá dentro e é por ti este desassossego. - Boa viagem Tommyhann. - e de súbito o mundo fica diferente, mais vazio de formas e de contextos, mas mais apinhado de aspirações. Não porque me tenha desviado de todos os meus sentidos e sentimentos para te encontrar mas porque a minha vida é agora uma viagem sem endereço. - Atenção senhores passageiros. O comboio estacionado na linha dois que esteve parado, ou atrasado por uma hora, parte daqui a quinze minutos e tem como destino, Santiago de Medo. Nunca tinha percebido o quão dormente é a vida quando se espia a existência arredado dos sons. Para mim, antes de aqui estar verdadeiramente, esta estação era apenas uma estação insustentável de corridas e de viagens e sem passagens. Os comboios passavam lentamente mas nunca paravam, era a minha ideia. Abrandavam, passeavam mas nunca paravam. Trezentos e sessenta e cinco dias vezes dez desde o último chá e desde o último abraço. Atrás desse tempo, eu voava nestes comboios, mas sempre no divã da minha cama, manipulava-os como um Dom Maldade que nunca conheci, cavalgava-os por meio de um tão meu amigo Dom Quixote, personagem vivo nos meus sonhos. Dormia nestes comboios, vadiava de carruagem em carruagem até ter percebido, agora, que aqui de perto é melhor. Parece-me neste momento que todo o meu sofrimento se reduz a não ter onde guardar tantas memórias. Todas estas coisas relacionadas com a insónia são só tragédia, só remorso e só medo, e tudo num tempo que lhes pertence e que não é este “agora”. Se ao menos eu tivesse percebido antes da tua carta que na intelectualidade se morre, saberia que todo o amor só é possível se for Arte. É no amor eterno que te guardo Ana de Chá. É lá que tudo se modifica e é lá que tudo é possível ao amor. Tudo. Até a monotonia do “ não existir “. Para que me serve uma cadeira se não me posso sentar no seu descanso, ou sentado ignorar que me anseias e me entristeces já, ou ainda pensar que me amas tão desalmadamente. É para isso que todo o meu espírito existe. E o Dom Maldade deve de certo viver em tamanha distância. Que agonia! Quando partirá o comboio? Enquanto sonho, nenhuma linha-férrea pertence ao comboio da minha viagem. Ao menos acordado sei que há coisas que se transformam em função dos meus desejos simples. Se em vez de um comboio fosse um navio! Mas nenhum navio chegou ainda para me desamarrar desta música estática, deste pensamento entre o que procuro e o que irei conquistar. O nítido atropelo dos dias ou das horas é hipnótico. Desmancha-me cada osso do corpo, e dói-me. Há sempre um momento final em que me dói, muitíssimo. Canso-me na espera, afagando em emudecimento a dor deste impotente estado de coração. Vivo na certeza de que daqui a nada um comboio deixará de se atrasar e virá por mim. E tranquilamente entrarei nele, “ensorrisado”, enorme e feliz para te procurar, Ana de Chá. Tantos sonhos. Junto-os e amasso-os com excitação. Sou um relâmpago de criação depois da carta da vida. Vejo o comboio a aproximar-se. E irei pisar cada degrau na mesma firmeza inicial, de dedos curiosos no corrimão, e a desejar que a vida se repita como hoje em todas aquelas insónias. Enquanto estive parado, estive. Sem talento e sem descoberta. Tão insuportável como imprudente na minha própria ausência, fraseando em suspiros alucinados, - “ Volta mulher princesa “. Cada manhã desse tempo era pálida na espreita de um comboio, até eu conceber a ideia de que nada é fácil sem o encanto das conversas tuas. Era tão difícil não ter o que é bom de se ter. Sequer egoísta sou. Sei que não, ou não amaria a concepção desta partida. O tempo passa em grande cuidado. Morosamente. E eu entro no comboio a que chamo vida para te procurar, quem quer que sejas, pensava eu. Momentos depois o comboio ganha velocidade e eu adormeço como se fosse o sono um experiência nova.