quarta-feira, outubro 26, 2005

"Atiremo-nos de Cabeça" - Capitulo IV

Pensão Palatino

A viagem não havia sido de todo memorável. Mas o comboio estava agora a apaziguar a velocidade, o que queria dizer que estava a segundos de Santiago de Medo.
Duas vezes apitou até parar definitivamente. Eu encaminhei-me para a porta, abri-a e mirei aquela nova paisagem como um descobrimento, um desconhecido que era. - Embora. Toca a descer – disse-me o senhor a quem, no interior do comboio, eu tinha comprado o bilhete, com ar apreensivo - É sempre a mesma coisa. Fazem-se de parvos a ver se a gente se distrai para ir mais longe. Mas a gente já os conhece a todos. E lá insistiu ele mais uma vez, mas mais irado ainda. - Vamos embora pá! Tem falta de ouvido ou quê? – apontando para mim – sim, sim. É consigo que estou a falar. - O senhor conhece o destino para o qual comprei este bilhete? – perguntei-lhe,disposto a reprimir-lhe pela sua falta de respeito para comigo. - Conheço o destino do seu bilhete e conheço também a espécie de gente a que pertence. Meliantes e parasitas que se aproveitam da inocência das pessoas. – fungando. Segundos depois oiço um cão ladrar no interior do comboio e a locomotiva arranca lentamente até ganhar velocidade.
























O dia começava agora a escurecer no lado oposto do pôr-do-sol e eu tinha de procurar um lugar para descansar o corpo fatigado antes que anoitecesse. Depois de fazer uma pequena vistoria pelas ruas de Santiago de Medo, pois a noite começava a cumprimentar-me, dei de caras com uma enorme casa em avançado estado de degradação onde se podia ler à entrada, Pensão Palatino. Para além das peças de roupa que dançavam numa espécie de estendal, havia uma rapariga de cabelo ruivo sentada no parapeito da janela. Uma das pernas estava na parte de dentro daquele quarto ou sala ou cozinha, não se percebia bem, enquanto a outra se balanceava para o exterior de forma convidativa. De momento não quis saber do efeito que aquela figura retrato surtia nos outros que por ali passavam, mas em mim havia produzido uma convocação apetecível. Entrei um pouco hesitante coisa que se percebia pelo lento caminhar das pernas e do ritmo cardíaco. À entrada havia um cão um tanto rafeiro que me mirava ensonado. Ainda chegou a levantar-se para me vir fiscalizar mas voltou a deitar-se antes de passar completamente pelo tapete. Reparei que havia cortinas em vez de portas nas duas entradas diante de mim. Ouvi passos numa qualquer direcção, imperceptível no momento presente. Segundos depois o som dos passos aumentara e uma das cortinas, a da porta ao meu lado esquerdo, moveu-se graciosamente. Recuei um pouco e o cão rafeiro ladrou abundantemente na minha direcção. Fez-se ouvir o som de um espanta espíritos e uma imagem feminina surgiu de entre a dança das cortinas. Uma túnica de fina seda envolvendo um corpo bem definido de traços e um rosto de leve acastanhado. Uma verdadeira musa de olhos e cabelos pretos. Na boca, o tom avermelhado dos lábios misturava-se com a cor das cortinas. Era sem duvida a rapariga da janela. Aproximei-me sem hesitar um momento que fosse. Mostrei-lhe a carta que havia guardado no bolso do meu casaco de noivado. E queria não tê-lo feito, mas fiz. Senti-me ridículo com aquele gesto, quase mendigo. Porque razão estaria eu a mostrar-lhe a carta? O que se estaria a passar comigo naquele momento? Ela leu-a e riu-se, primeiro. Depois ri-me eu, ou sorri, já não me lembro, e por fim rimos os dois como se ríssemos de uma parte da minha vida em que eu era um cómico apaixonado por tudo. Não sei bem do que ria mas enquanto me ria esquecia os trezentos e sessenta e cinco dias vezes dez que havia ficado desocupado de todo o interesse da vida. Pensava agora que o mais importante não é saber onde está qualquer coisa, mas sim procurar. Havia uma despreocupação útil na disposição do que queríamos. - Incrível o que acontece nestes dias e depois de tanto tempo. – disse-lhe. Subimos as escadas daquela pensão sem sequer trocarmos os nossos nomes e sem sabermos se nos esperava uma cama feita para o amor ou se nos atiraríamos da janela daquele primeiro andar.