segunda-feira, outubro 24, 2005

"Atiremo-nos de Cabeça" - Capitulo II


Reminiscência





Não é nada tonificante esta rotina despendida entre andar de cá para lá e horas a fio no café Profeta, esse café que, começo a entender presentemente, é habitado pelas mais ilustres heart Stiller’s, ou como se diz em bom português, usurpadoras de corações, o género de mulheres princesas que nos prendem para sempre aos seus encantos.

E agora sim! Cheguei finalmente ao que importa contar.

Em tempos conheci nesse café uma dessas mulheres princesas e nunca mais lá voltei. A partir desse dia, essa mulher, jovem ainda, dezoito anos, começou a visitar-me diariamente. Nessa altura a minha casa era elegantemente sedutora. O nome dessa senhora princesa era Ana de Chá. Sei-o agora, por cartas que recebi. Ana é Ana, mas Chá é nome estranho para pessoa, e ria-me muitas vezes no momento em que o pronunciava.
- Chá, como chá bebida quente? – e sorria sem dar-me conta do fascínio que apenas o nome me havia causado. Na altura havia sempre qualquer coisa que me impedia de questioná-la sobre o seu nome. Havia uma facilidade desmedida em falar-lhe de mim, de coisas ligadas a mim ou da maneira como eu via o mundo e as coisas nele presentes, mas nunca me ocorrera perguntar-lhe sobre aquele seu interesse súbito em mim. E desde manha cedo até dormir, porque nesse tempo eu dormia precipitadamente, eu redobrava a minha atenção dedicando-a a essa senhora princesa. Foi fácil apaixonar-me por ela. Assim acreditei nesse tempo. Ainda me interrogo sobre tanta coisa que pertence a esse tempo. Recordo-me da senhora Chá quando observo a ausência de imagens retrato na parede do meu dormitório. A senhora Chá desapareceu há uns longos dez anos. Nos meus sonhos pensados e acordados sonho infinitamente com os seus vestidos, com o cheiro que tinham, com os pormenores ou com as formas com que ela presenteava esses vestidos. Eram sempre os mais bonitos, e os mais admiráveis de todos, como ela dizia. E eu contemplava-os mesmo nas histórias desordenadas que ela me contava em tempos de visitas e de chás. Sabes, – disse-me na última noite que a vi –, há um espaço inatingível onde todos os seres representam a melhor imagem de si. E na imagem de cada um recriam aspirações e devaneios de um interior íntimo e distante de tudo o resto. E eu creio que isso é que é sonhar e creio que é o mais terno e genuíno gesto do “existir”. As madeiras da minha casa apertaram-se e as fendas por onde a corrente de ar entrava e por onde eu admirava muitas vezes a sombra de pessoas verdadeiramente magníficas, haviam-se tornado insignificantes perante aquele juízo de valor. Senti-me mais vigilante para o momento e acompanhei os seus movimentos como se estivesse interessado em que a sua prosa profética não acabasse. E enquanto ela entornava para pequenas chávenas o primeiro chá, as cortinas do meu quarto desamparado pereciam querer convidá-la para uma dança só de olhares. Era demasiado elegante para mim a postura perfilada do seu corpo. Sentia-me capaz de a envolver em mim, apertá-la no opaco do meu colo, convidá-la a abraços dançáveis mas, ao mesmo tempo, lamentava não poder conceber a mais simples palavra que fosse para lhe dizer que a estava a amar. Dos meus devaneios este fora o mais excêntrico e o mais apetecível. - E então? - perguntava-me eu no meu silêncio exercitando uma possível revelação – Será agora nesta casa onde a minha arte habita que o meu sentimento irá ser anunciado? Nestas alturas não sei falar. E não soube naquele momento aumentar o volume do meu pensamento até se ouvir no exterior de mim. A senhora princesinha olhou-me bem no fundo dos olhos parecendo ter-me percebido e, aquele instante, mínimo, foi o bastante para me derrotar de tudo. Fui incapaz de me compreender. - Queres chá, suponho. – Disse-me com um brilho admirável suportado pelos seus olhos. E nesse momento gerou-se no meu interior algo como a imagem de sonho que eu haveria querido para mim se a mim fosse concedido o direito de sonhar, se pudesse eu escolher ser o menos miserável dos seres em função do amor. Nesse momento preparei-me para me acusar num sincero manifesto de indizíveis sentimentos. E lentamente expressei-lhe ternamente o impossível de mim ou a transformação do que eu era naquele momento. - Amar-me-ias como eu a ti? Amar-me-ias só por que te declaro agora o meu evidente sentimento? - Amar-me-ias tu sem quereres saber o quanto te iludiria? – retorquiu ela surpreendida. - É já maior a firmeza que me acompanha para me revelar a ti. – disse-lhe hesitante e sentindo-me confuso - Não sei o que pensar e perdoa-me se te não minto. E foi ai que, enfim, me permiti falar sobre algo que até então estava pendurado no meu alento, mesmo na parte funda daquilo a que chamo coragem. - A divina estima que te guardo, penso-a a todo o momento. A divina estima do amor. Penso pouco no amor, ou passei a pensar mais agora que te conheci. Mas ainda não sei bem o que pensar do amor, e de certo me entendes tu melhor do que ninguém pois é por ti esta estima ou este amor ou não sei bem. Sem nunca perder o assombro pela sedução do seu magnífico olhar, ou todo o momento conjugado, eis que me havia surgido um rasgo de intervenção, um alento em todo aquele desespero de nunca me ter mostrado sobe a forma de apaixonado, considerava eu. Com a suavidade de um inocente fixei-a e, mais que isso, admirei-a, imerso no que havia dito. Percebi depois que em vão lhe havia dito tudo aquilo, que para mim, era o mais precioso e novo segredo que me habitava. - Parece-te óbvio tudo quanto te dou neste momento, nisso reparo. Porquê, então? – Perguntei numa voz cálida e mirando-a em sofrimento - Porquê tanta hesitação na tentativa do teu amor por mim? Acaso não te mostro disfarçadamente o quanto te quero? Parece-me que não sei ou me esqueci de como se sorri perante a pessoa que amo de amor à vida. Por isso me encontras mais sisudo recentemente. Primeiro duvidei que não me tivesse percebido, mas logo compreendi que afinal se assustara um pouco com tamanha investida do meu coração. - Porquê tanta hesitação na tentativa de te prenderes a mim? Nem uma palavra escuto já de ti. Ao menos um sorriso? – disse-lhe um pouco incomodado com o ridículo da minha figura. - Perguntas-me, e eu não te sei responder. Ao mesmo tempo sinto que sabes que poderia amar-te como coisa que nunca vi. Acreditas? Sei-o agora. Eu pensava nas suas primeiras visitas. Mas que poderia eu pensar da sua resposta? Que afinal também me amaria como eu a ela? Que estava disposta para mim? O meu pós pensamento, revelava o quanto eu temia de mim mesmo, o quanto eu duvidava do meu sentido de vida, o quanto eu não sabia de sentimentos de companhia. Pareceu-me assustada com o que me dissera e lentamente afastou-se de mim, levando um assento para junto da janela. Já não me observava como sempre o fizera e disse-me quase de forma imperceptível. - Temia este momento mas sabia que um dia me dirias todas estas coisas. Mas pior do que esse receio é o medo incalculável que tenho pelo que sinto por ti. Creio amar-te tanto que julgo não saber amar-te. Levou a chávena aos lábios e bebeu no chá o arrependimento de me ter visitado especialmente neste dia. Os vestidos deixaram de fazer sentido no seu corpo e teve dificuldade em conter-se na mostra de desalento e de descontentamento. Sentiu-se como se eu a pressionasse a cada segundo que passava e disse-me tristemente. - Sim Tommyhann! Amo-te mais que a mim. E sim Tommyhann! Parto amanhã para destino incerto. Havia algo de errado em todo aquele envolvimento e conversa. A casa toda ficara mais feia. As cortinas e até mesmo as madeiras desfaleceram, deixando a corrente de ar entrar pelas gretas, agora maiores. Olhei-a obstinado e num rasgo de desespero e raiva gritei para dentro de mim até não poder mais. Como se falasse com o meu coração, como se estivesse revoltado pela inércia do meu coração, e disse coisas confusas e atrapalhadas na esperança de que ele se manifestasse em meu socorro. Gritei até se ouvir cá fora. - Quantas coisas foram uma delícia? Quantas? Tive e tenho a cabeça a circular em volta de cigarros. Viciado no gesto elegante de segurá-los pelos cotovelos. Quantos “ vou “ e “ não vou “ ficaram só pelo gosto e desejo de te mandar cartas de despedida? Será o espaço marcado e demarcado pela presença de um ilusório terreno de conquista? – gritei deixando-me deprimir. Nesse momento baixei a cabeça envergonhado, julgando não mais a levantar. Mas sentia qualquer coisa que me impedia de ficar em silêncio. Receava ser a última visita ou o último encontro entre nós. - Meu coração! – continuei - Quantos batimentos aflitos te restam? Quais são os que prestam? Quantos bafos te restam dos que prestam? Por quem te precipitas? Por quem dormitas e te excitas? Quem é o teu regente? Quantas mais desistências habitam o teu imediato? Serei eu mil personagens, mil maneiras de te sentir? Não tenho olhos copiados, não tenho trabalhos forçados de mau anjo acordado e aos trabalhos obrigado. Portanto… - já sem fôlego. Retive por momentos toda aquela explosão de raiva momentânea e acalmei o meu estado de frustração perante o que se iria passar dali em diante. - Finalmente te encontro desequilibrado meu coração, como se fosse só a morte a origem de todas as desgraças. Que digo? Só barulho. Só entulho. Que força existe para além da tua, coração? Olhos, cabeça e relógio que te sustenta. Que pés te movimentam se és só instrumento de corpo, pequeno assobio ou peça de piano auto-suficiente? Até quanto? Até onde irás? Será que te inventei triste, ou és já um manifesto do que te faltaria de bom? A senhora princesinha olhava para fora da janela enquanto me ouvia, como se o que estivesse a ver fosse um retrato, um quadro convincente e perceptível de uma partida antecipada. Assim não teria de olhar bem na essência dos olhos e, obrigatoriamente, eu deixaria de falar daquela maneira, e ela não acrescentaria absolutamente mais nada. E fui cobarde. Portando não houve de mim outra investida a modo de arquitectar nova comunicação, ínfima que fosse, para lhe suplicar que fixasse. - Acaso estás prestes a deixar de me ouvir? – disse-lhe desesperado. Houve um silêncio repentino que me incomodou. Mas continuei - Nada se justifica já em função do amor, ou nada se motiva pelo que sinto por ti? Deixarei de te amar se isso favorecer a vontade que tenho de que não partas. Pois esses sonhos de que falavas de que me servem se me abandonas ou se partes para destino incerto. Virou-se inesperadamente, apertando a saliva entre os dentes e chorou, deixando cair a chávena de chá, encostando-se à parede de madeira, deslizando paulatinamente as costas do vestido, entregando-se ao chão de pinheiro. E ficou ali a soluçar, a saborear o “enlagrimado” choro que lhe descia dos olhos, misturado com a balancear das ondas que sacudiam a casa. Quando os olhos lhe secaram ela fintou-me, mais uma vez, no fundo da minha vista e, despedindo-se de mim de forma taciturna, afastou-se para a saída. Parou por um instante antes de assentar a mão no puxador da porta. Girou o corpo de soturna figura e avançou delicadamente sobre mim, abraçando-me! Sequer um beijo demos. Já nem me lembro de vê-la sair desta minha casa. Não sei bem porquê. Talvez queira apenas lembrar-me de algo bom, como foi o gosto do abraço.