Agarro-te antes que enlouqueças e atiras-me da proa do teu navio.
E não morro por um fio.
Disse: “ Não morro por um fio.”
Alguém está louco a frio, sem imaginação que chegue para não tornar o meu teatro numa comédia, num drama.
Alguém a dormir sem cama.
Ao frio.
E depois de quatro ou cinco gritos sou o herói que te segue a arrastar-se pelo nojo do chão.
Em jejum de beijos.
Perdi todos os desejos, ao ficar louco.
Sou um bonequinho de madeira a fugir do sol, mas que é um encanto.
Que é do abraço que me sustenta?
Ficou parado na lentidão.
Dorme sossegada na fadiga Ana pequena.
Sem cansaço de paixão antiga.
Juro que aguento viver sem sorrir, sem falar, sem chorar, sem mentir.
Fiquei azul de comer tanto céu, tanto mar, de tanto jurar.
Sou inútil.
Génio, mas inútil.
Ah! Se me visses soberbo de amor, a escapar ao coração podre de dor, como um vulcão só de vapor.
Aumentas a tua ira.
De rosto amarrotado pelas mãos do génio da loucura, faminto de um mal estar cruel, como se tudo fosse doce e mel.
Dia de fugir.
E eu corro atrás.
Mas só até ao fim deste dia, que era leve e profundo, puro e lúcido.
Que monstro!
Mudar assim tão brutalmente.
E eu, humilde e manso a pedir ao tempo cem milhões de perdão.
Do navio não!
Para o chão não!
Essência perdida que envelheceu mais rápido do que eu, é o que é.
Treme, treme coração.
Converso com ele na mão e a olhar-te cego e crente.
Pobre velha ingenuidade.
Que é do abraço que me sustenta?
Gira, gira Ana pequena em redor do teu encanto, a chorar pela velhinha que morava bem sozinha na casinha do Pai Santo.
A velhinha morreu.
Era ceguinha.
Vem ouvir-me cantar.
Meia noite sem estrelas num céu escuro e desencantado.
Onde está a tua lua?
Queres vê-la?
Então pára um pouco no banquinho vermelhinho, ao lado da igreja, onde a chuva sabe bem e lava a alma com mais calma.
E tu não paras.
E eu cansado de fechar os olhos.
O verdadeiro maestro da Aninha pequenina.
Volta a chover.
Que é do abraço que me sustenta?
Creio que era errado.
Ficou fechado.
Cá fora o meu altruísmo persiste, sem inveja da cabeça alta e sorridente.
Cariz baixo.
A fechar os olhos a três tempos.
Já vais longe, acho, penso.
Atira-me do navio quando estiver sonâmbulo e fraco de amor, seja de que amor for.
Tanto fogo na tua fogueira.
E eu a dançar no meio dela, enfeitado pelo fumo colorido, como um mendigo.
Que castigo.
Eu, doentio pelo vinco que me traiu.
Depois passa.
Tudo passa.
Mais preenchida fica a vida, sem esmola de sonhos que são teus olhos em sintonia a marchar para um castelo.
Redobro os meus nervos.
Onde está o meu amor?
Morre na chuva da rua curta.
Quem diria!
Agora regresso mas sem pressa.
Sozinho como num conto.
Lacrimejando e choroso.
Fora do navio.
Agora por um fio.
Dorme, dorme sonhador.
Deslumbrante e transparente, como um espelho que corta.
Talvez tenha sido feito para cortar qualquer olhar.
E se parasse de olhar, agora que a nada se reflecte?
Mentira.
Absolutamente mentira se pensar que te segui até ao navio, até ao cimo do monte, felicíssimo e condenado por te cruzar Com este corpo.
E isso reflecte.
Foi pela lua que te inventei, janela.
Hoje serei a tua cortina branca e de seda, a remexer-se elegante e muda, como se fosse surda se lhe dizes que fique quietinha.
Vem comigo até cá baixo.
Vem que eu não falo.
E se falo logo me calo, feito criança, pedinte de amor.
Já não quero esta dor.
Já não existe espaço.
É sempre tanta coisa.
Conheces o homem que nunca foi nada?
Saiu de casa de madrugada para fechar os olhos de uma rajada.
Porque já não havia espaço.
Não havia nada.
Nem um passo.
Que mundo na nossa cabeça!
Mas sabe bem.
Até que nos atiram do navio do Capitão Maldade.
Mas o Capitão já não mora lá.
Já não se chama Maldade.
Já não é Capitão.
Acabou o filme que era longa metragem, ou que iria durar até eu me fartar de escrever sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa.
Não sei se volte cedo.
Se dormir bem.
Se me fartar do filme.
E é realmente difícil o entendimento.
Nem sequer estás a ralhar comigo Aninha pequenina.
Só quero ficar ai.
E se dormir bem, se me fartar do filme, talvez me levante desta cama, a quem roubaram os cobertores porque eram feitos de renda.
Aperta-me ai no teu colo.
Guarda aí um lugarzinho para mim.
Já não há espaço?
Então fico sozinho a dormir aqui.
O sono e a confusão misturados.
Fascinante no verdadeiro sentido da frase, mas qualquer interpretação serve.
Apregoa a alma.
Sim, a alma!
O mundo agradece.
Depois, mais tarde, o mundo agradece.
Agora já me podes atirar do navio.
Devagarinho para não fazer muito barulho ao cair no chão.
E fecha a porta.
Fecha.